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Dois Dias, Uma Noite: o que seria capaz de fazer para manter o seu emprego?

Dois Dias, Uma Noite

Dois Dias, Uma Noite: o que seria capaz de fazer para manter o seu emprego?

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O filme Dois Dias, Uma Noite acompanha a história de Sandra, que reside numa área industrial nas proximidades de Liège, na Bélgica. Sandra – interpretada por Marion Cotillard – é jovem esposa e mãe, com um emprego numa pequena fábrica de painéis solares, que tem um colapso nervoso devido às suas rotinas diárias e é forçada a tirar baixa médica do trabalho para recuperar mentalmente.

Durante a ausência de Sandra, a administração da empresa decide atribuir um bónus anual de 1000 euros a cada colaborador, se concordarem trabalhar horas a mais para cobrir o turno de Sandra. Mais tarde, quando esta regressa ao trabalho, é informada de que só será capaz de recuperar a sua posição se os restantes colaboradores da empresa concordarem em reverter os seus turnos.

Ao longo do filme, Sandra visita cada um dos seus colegas, no espaço de dois dias e uma noite (um fim-de-semana), para os persuadir a abdicar do bónus antes da reunião na segunda-feira onde todos votarão para decidir se fica ou não na fábrica.  A votação resulta num empate (oito votos a favor, oito votos contra), significando tal que Sandra não poderá recuperar o seu emprego.

Todavia, o gestor da empresa chama-a ao seu escritório para fazer uma proposta: Sandra pode recuperar o seu emprego se um dos colaboradores que votou a seu favor for despedido. Confrontada com este dilema, Sandra acaba por recusar a oferta, libertando-se das condicionantes impostas pelo emprego para que possa começar a sua vida com uma nova perspetiva.

Dois Dias, Uma Noite: as várias camadas do realismo social

Tratando-se de uma obra dos Irmãos Dardenne, Dois Dias, Uma Noite é pautada pelo realismo social e aborda diversos subtemas deste tema abrangente. O subtema principal prende-se na questão do desemprego, sendo que é a causa de Sandra que move todo o filme.

O desemprego funciona como um catalisador de outras temáticas como a depressão, visto que é a doença que a faz perder o emprego e esta fica evidenciada pela situação stressante em que Sandra se encontra; a dependência de fármacos, presente nos comprimidos que a protagonista toma ao longo de todo o filme e a overdose que tenta provocar num momento de desespero; e outros problemas relacionados com saúde mental, sendo que Sandra sofre com ansiedade, tem ataques de pânico e duvida do amor do marido.

Outros subtemas deste filme são a violência provocada por razões económicas, saliente em duas cenas do filme – a luta entre Yvon e Jerôme, empregados da fábrica, em que o último empurra Sandra, e a discussão exaltada numa das cenas finais, na sala dos funcionários – a violência doméstica, presente na narrativa secundária com Anne, colaboradora da fábrica, que sofre no seu casamento e decide divorciar-se; e a pobreza generalizada na sociedade, que faz com que muitos empregados não aceitem recusar o bónus, representada pelos diversos agregados familiares que Sandra visita.

Os vários agregados explicados acima são um recurso para explorar, na filmografia dos irmãos Dardenne, a falta de emoções na tomada de decisões morais. Willy e a sua mulher não querem abdicar do bónus porque têm filhos na universidade, Mireille é divorciada e precisa do dinheiro extra para reconstruir a sua vida e Icham não pode abdicar do prémio porque, mesmo com dois empregos, não tem dinheiro suficiente para sustentar a sua família.

Por outro lado, Timur chora quando Sandra o aborda, sentindo-se culpado por receber o bónus enquanto a colega passa dificuldades. Os múltiplos trabalhadores da fábrica demonstram diferentes pontos de vista, espelhando a sociedade contemporânea. A própria protagonista, a certo ponto, afirma que compreende a situação dos colegas que lhe recusaram ajuda e considera que talvez não cedesse o prémio se os papéis fossem invertidos.

Peter Bradshaw (2014), do The Guardian, associa este filme a Bread and Roses (2000) de Ken Loach, cineasta contemporâneo também dedicado ao realismo social. Ele também compara Sandra Bya à personagem Sam Shapiro, um homem que tenta recrutar empregados de limpeza para criar uma união de trabalhadores.

Estilisticamente, o filme Dois Dias, Uma Noite vai de encontro às características gerais do cinema dos irmãos Dardenne, destacando-se apenas a música – presente em dois momentos diferentes – como algo acessório e distintivo na obra.

 

 

 

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