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O Garoto de Bicicleta: a rebeldia e angústia de um pequeno rapaz

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O Garoto de Bicicleta: a rebeldia e angústia de um pequeno rapaz

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Le gamin au vélo (traduzido em Portugal para O garoto da bicicleta) é a história de Cyril Catoul, um menino de onze anos que foi abandonado pelo pai e deixado num orfanato. O rapaz tem dificuldade em aceitar esse facto e passa a primeira parte do filme à procura dele, sendo agressivo com os funcionários da instituição e todos que o tentam ajudar. Um dia, quando vai ao seu antigo apartamento procurar o seu pai e a sua bicicleta, conhece Samantha, uma cabeleireira que encontra a bicicleta do miúdo e que – a pedido dele – se torna na sua família de acolhimento.

Samantha tenta dar uma infância normal a Cyril, mas este sente falta do pai. Tendo isto em conta, a cabeleireira leva a criança até à cidade onde Guy Catoul vive atualmente. No breve encontro com Cyril, Guy ignora o afeto do filho, tenta mentir-lhe dizendo que lhe telefonará regularmente, mas acaba por pedir à criança para nunca mais o procurar.

Apesar dos esforços emotivos de Samantha, Cyril – sensível com a rejeição do pai – acaba por procurar uma figura paternal em Wesker, o líder de um gang local. Este ensina e incentiva-o a roubar, afastando-o das boas influências da cabeleireira.

Após agredir e roubar o dono de uma livraria e o seu filho, Cyril é rejeitado por Wesker, sendo que este tem medo que o rapaz seja reconhecido pelas vítimas. Cyril tenta oferecer o dinheiro roubado ao pai mas é, mais uma vez, rejeitado e procura conforto com Samantha.

Esta acolhe-o novamente, obriga-o a assumir o seu crime e paga a indemnização às vítimas. Um dia, Cyril encontra aleatoriamente as vítimas e um deles agride e persegue-o, fazendo com que o rapaz tenha de subir a uma árvore. O filho do livreiro atira pedras ao protagonista e este cai desamparado no chão e acorda algum tempo depois, rejeitando a oferta dos (outrora vítimas) agressores para chamarem uma ambulância. O filme termina com Cyril a ir embora de bicicleta, demonstrando uma grande evolução, relativamente ao miúdo rebelde que era no início.

O Realismo Social presente em O Garoto de Bicicleta

Estando presente na filmografia recente de Jean-Pierre e Luc Dardenne, o realismo social é uma forte influência nesta obra. Retratando a sociedade belga contemporânea, o filme explora vários subtemas dentro desta temática: a pobreza generalizada, destacando-se a venda da mota de Guy e da bicicleta de Cyril; o abandono de crianças, espelhado na narrativa inicial de Cyril e na sua procura incessante pelo pai; a adoção e as possíveis complicações da mesma, simbolizada pela relação entre Cyril e Samantha; crime e delinquência juvenil, presente no gang de Wesker e nos atos do grupo; e violência na sociedade, exemplificada pelas lutas de Cyril com os responsáveis do orfanato, Samantha e, de certa forma, quase todas as outras personagens em algum momento.

 

Comparando diretamente Le gamin au vélo a L’Enfant, Cyril é, efetivamente, uma criança e tem atitudes semelhantes às de Bruno, que é um jovem adulto. Mais especificamente, existe uma cena em Le gamin au vélo em que Cyril se agarra a Samantha, sem sequer a conhecer, procurando proteção. Esta pode ser comparada com as cenas de L’Enfant e Le silence de lorna, descritas anteriormente, em que o protagonista masculino procura cuidado e proteção na protagonista feminina sendo que, neste caso, esta necessidade é inserida num tipo de relação diferente.

Também idêntica nos três filmes supracitados, é a ausência de emoção nas decisões morais. Em Le gamin au vélo, existe o abandono de crianças e os crimes do gang – ambos explicitados acima – e é impossível não destacar uma das cenas finais em que o dono da livraria e o seu filho, confrontados com a possível morte de Cyril após cair da árvore, planeiam uma história para contar às autoridades, mesmo antes de pedirem uma ambulância.

Desta forma, os irmãos Dardenne demonstram o carácter geral do filme e a falta de moralidade na sociedade contemporânea.

Quando o filme saiu, alguns críticos compararam-no com o movimento neorrealista. A revista britânica Sight & Sound afirmou que “the Dardenne brothers may be the most consistently high-achieving filmmakers of our time – the kings, if you like, of poetic neorealism”. Peter Bradshaw (2012), editor da crítica cinematográfica no The Guardian, comparou o filme supracitado com Ladri di biciclette (1948) de Vittorio De Sica, declarando que é “heartfelt, boldly direct film composed in the social-realist key signature of C major, revisiting the film-makers’ classic themes of parenthood, trust and love”.

Relativamente ao estilo visual e sonoro, Le gamin au vélo segue a premissa dos filmes sobre realismo social dos irmãos Dardenne, com duas subtis diferenças. Visualmente, comparando com os outros filmes deles, existe um enfoque no brilho e na intensidade das cores dos cenários e, principalmente, do vestuário das personagens. Sonoramente, existem músicas instrumentais em alguns momentos do filme que funcionam como um calmante para Cyril.

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