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Irmãos Dardenne: a dupla de realizadores com foco para a realidade

Irmãos Dardenne: a dupla de realizadores com foco para a realidade

 

Naturais de Liège, na Bélgica, os irmãos Dardenne são hoje celebrados cineastas conhecidos pelos seus trabalhos enquanto argumentistas, produtores e realizadores de cinema. Em atividade de 1978, estrearam-se a fazer documentários para televisão. Mais tarde, o seu trabalho aproximou-se do cinema político e ao retrato das classes sociais mais baixas na Bélgica. Em 1987, realizam a primeira longa-metragem de ficção da sua carreira, o filme Falsch que os encaminha numa direção distinta do filme documental. A sua posição no género de Realismo Social é consolidada quando conquistam especial atenção por parte da crítica nacional após a apresentação do filme La promesse (1996).

O trabalho desta dupla foi orientado desde as suas origens por uma visão realista que tem o propósito de dotar as suas personagens com poder para que se consigam libertar das condições económicas, relações pessoais e estados mentais opressivos que as restringem e destabilizam (Mosley, 2013, p. 1). Desde a primeira fase em que se dedicaram a trabalhos documentais (1974-83), passando pela época em que se voltaram para filmes de narração fictícia (1986-92) até ao momento em que realizaram Le Promesse em 1996 que esta perspetiva se manteve.

O autor Mosley (2013) partilha a sua própria visão acerca das razões que orientaram os realizadores a seguir uma perspetiva dominada por preocupações éticas à qual se associa uma dimensão política. “I believe that the Dardennes’ entire filmmaking career so far has shown their acute awareness of a need for both individual and collective responsibility in human relations. I agree broadly with a dominant critical view that ethical concerns lie at the heart of their work, but I prefer not to see these concerns as detached from a fading sense of politics.” (p. 2)

 

A emergência desta temática no trabalho dos realizadores poderá ser associada a diferentes contextualizações. Os filmes dos irmãos Dardenne abordam contextos atuais, com problemas da sociedade moderna, mas que resultaram da realidade capitalista e das consequências pós-guerra consolidadas no mundo ocidental durante a segunda metade do século XX: um novo mundo onde surgem zonas de comércio livre, globalização, emigrantes trabalhadores e o mercado comum, mas onde persistem de igual forma problemas sociais, como a pobreza, exploração da classe operária, crime, entre outros.

A realidade capitalista e o impacto que esta tem sobre o trabalho dos irmãos Dardenne é comentada por Pippin (2015), quando relembra que a dupla de realizadores começou por realizar documentários que se focavam no movimento operário belga até começarem a realizar filmes com caráter mais ativista quando o mesmo movimento operário começou a ser dominado pelo sistema capitalista após a II Guerra Mundial (p. 761).

 

Irmãos Dardenne e as crises de consciência

Pippin (2015) fala ainda de um problema específico resultante do sistema capitalista que é evidenciado no trabalho dos irmãos Dardenne: a competição implacável forçada pelas entidades patronais sobre os trabalhadores, levando cada indivíduo e operário a competir constantemente entre si pelo seu lugar no mercado de trabalho (p.761). Citando diretamente Pippin (2005), “In fact it would not be an exaggeration to say that the Dardennes’ films are the most lucid artistic explorations we have of the quotidian and lived through consequences of the absence of any organized, principled resistance to the excesses of capitalism after the collapse of any credible form of leftist solidarity.”

Os documentários dos Dardenne, que se demarcam por ser particularmente fundados em histórias políticas e sociais, abrangem já questões éticas através da construção e mediação do discurso de testemunhas que refletem tais dimensões. Mosley (2013) nota ainda que a partir de 1996, aquando da realização de Le promesse, os realizadores continuam a trabalhar tais preocupações, mas recorrendo à dramatização das mesmas e ao recurso de retratos descomprometidos de indivíduos e das vidas que vivem inseridos em contextos socioeconómicos sombrios (p. 2).

Relativamente aos trabalhos que se seguem, Mosley (2013) destaca ainda que o trabalho dos irmãos Dardenne continua a evoluir ao ponto de que os seus filmes mais recentes se comecem a focar em crises de consciência e nas ações das personagens enquanto seres individuais face às condições sociais e económicas que vivem. “We may thus see the developing cinema of the Dardennes as an ethical body of work within a politically informed social realist mode, one that engages with questions of honesty to ourselves and others, and of how we assume and exercise a sense of human responsibility” (Mosley, 2013, p.2).

Entre 1996 e a data em que o presente artigo foi elaborado, a dupla de irmãos tinha realizado oito filmes, todos eles relacionados com questões morais. O mais recente foi A Rapariga Desconhecida – La fille inconnue (2015). Ao longo de mais de duas décadas, o reconhecimento e alcance internacional dos realizadores tem aumentado. Nos anos 90, o filme Rosetta (1999) valeu-lhes o primeiro Palme d’Or no Cannes Film Festival.

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