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Obras-Primas do Cinema Europeu: O Vampiro de Carl Theodor Dreyer

Obras-Primas do Cinema Europeu: O Vampiro de Carl Theodor Dreyer

Carl Theodor Dreyer é um dos cineastas mais importantes do cinema por força de filmografia tão fundamental que se coloca ao lado dos maiores ficcionistas do século.

A preocupação básica que alicerça sua obra assenta-se na percepção filosófica do bem e do mal, da maldade e da bondade, enfim, da condição humana desvinculada de seu contingenciamento material conjuntural, pelo menos em seus filmes conhecidos.

É visão lançada para além da matéria, objetivando atingir o íntimo do ser humano na vocação que se crê transcendental.

Constitui pesquisa e reflexão sobre o indivíduo balizado pelas coordenadas positivas e negativas que o encerram conforme manifestadas na atuação prática.

Daí estranhar-se, a princípio, ter realizado filme sobre vampiros, nada parecendo ser mais alheio a tais diretrizes do que esse tema. Contudo, Dreyer não explora o veio terrorífero que embasa a lenda. Longe disso e, ao contrário, desmistifica-o, trazendo-o para uma realidade apavorante, mas, realidade. Como se o mal e o terrível não fossem apenas obra de ser monstruoso, porém, mal e terror decorrentes da fragilidade do ser humano. Terror permanente e disseminado, portanto.

Assim, O Vampiro (Vampyr, França, 1932), não se centraliza nem se confina à individualização do monstro, mas, à força maligna que dissemina como uma peste. Não é, pois, filme que focaliza sua atuação a partir do estereótipo conhecido, mas, nucleia-a em suas consequências, como malefício que se transmite pela contaminação sanguínea.

Toda semelhança com a AIDS não constitui mero acaso, conquanto, obviamente, à época, não se conhecia essa calamidade, não obstante, conforme pesquisas atuais, encontre-se sua origem exatamente no período, inícios da década de 1930, quando o filme estava sendo realizado.

O tema, no entanto, na concepção pessoal de Dreyer, não possui origem fortuita, deitando suas raízes no conhecimento e na compreensão das devastações que de tempos em tempos, desde a mais remota antiguidade, varrem coletivamente a vida humana.

A Imagem Reveladora do filme O Vampiro

O filme possui estrutura complexa. A perplexidade que se tem, por exemplo, diante de Morangos Silvestres (Smulstronstãllet, Suécia, 1957), de Ingmar Bergman, que se cinge ao plano onírico, aqui se diversifica, já que se localiza no próprio eixo da trama, de intrincada tessitura. Tudo é ignoto, estranho, imperceptível, misterioso, constituindo conjunto enigmático que ao mesmo tempo que se vai desvendando mais se complica.

À medida que se adentra em seu interior mais se torna adensado, num desnorteamento inicial que o paulatino conhecimento da situação pelo protagonista, se não o atemoriza, mantém-no por largo tempo apenas como espectador.

Todavia, o conhecimento leva à ação. Esse binômio, apanágio de espécie, coadjuvado pelos atributos da solidariedade, coragem, bondade e, também, instinto de defesa e conservação da espécie, funciona como mola propulsora da participação e intervenção na realidade.

É o que acontece. Não com a simplicidade e a linearidade que a assertiva pode levar a supor.

Carl Theodor Dreyer, herdeiro e fautor das mais avançadas concepções estéticas imagéticas e plásticas que dominaram a atenção e a atuação do grupo de intelectuais que se postou na vanguarda artística na década de 1920, e, ainda, forrado da tradição cultural europeia, receptora, assimiladora e transformadora da herança universal deixada pelas mais antigas civilizações do Oriente Médio e da Ásia Menor, elabora visão própria do fenômeno que investiga.

Une as pontas da vanguarda formal, das possibilidades plásticas do décor e da imagem, da utilização estética de luz e sombra e das mais profundas concepções metafísicas da natureza do ser humano numa só realização fílmica, síntese de tudo.

O efeito desse encontro e do amálgama daí resultante é de eficaz beleza e de intrincada articulação dramática, em que seres, objetos, luzes, sombras e ângulos de visualização formam composições imagéticas picturais num conjunto que harmoniza requinte estético com tétricas corporificações do mal.

Conquanto realizado em pleno domínio do cinema sonoro, o filme enquadra-se nos parâmetros do cinema mudo, por sua concepção e estrutura, do que resultam legendas explicativas próprias daquele cinema e raríssima e excepcional dialogação. A imagem é que fala.

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