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A Rapariga Desconhecida: o que acontece quando não respondemos à campainha

A Rapariga Desconhecida: o que acontece quando não respondemos à campainha

 

O filme La fille inconnue conta-nos a história da Dra. Jenny Davin, uma médica de família numa área urbana nas proximidades de Liège que, numa noite, decide não abrir a porta quando uma mulher toca à campainha depois do encerramento da clínica. Na manhã seguinte, descobre que a mulher que tinha tocado à campainha foi encontrada morta num local de obras junto ao rio. Sentindo-se culpada, Jenny assume como missão identificar a rapariga anónima.

Usando o telemóvel, mostra a fotografia da mulher a alguns dos seus pacientes na esperança de a identificar. Ao perceber que Bryan, um adolescente que está a tratar, tem uma reação estranha ao ver a fotografia, Jenny pressiona-o até este admitir ter visto um encontro sexual entre a mulher e um idoso.

Ao identificar o idoso, Jenny descobre que a mulher é prostituta, mas ainda assim não consegue descobrir o seu nome. Só mais tarde é que o pai de Bryan confessa que após tentar forçar a prostituta a ter relações sexuais consigo, a perseguiu e esta caiu no local de obras.

Jenny revela que a mulher morreu não devido ao impacto, mas sim à perda de sangue enquanto estava inconsciente, o que significa que o pai de Bryan podia ter salvo a mulher se tivesse chamado uma ambulância. Atormentado por culpa, o pai de Bryan tenta suicidar-se na casa de banho do consultório. Esta experiência impulsiona-o a confessar a sua culpa à polícia.

No final, Jenny pensa ter resolvido o caso e ter descoberto o nome da prostituta como sendo quando recebe uma paciente que é, na verdade, uma das mulheres a quem tinha mostrado a fotografia. A mulher revela que Serenda é a sua irmã e que na verdade se chama Félicie. Admite que não quis reconhecer a irmã por ter vergonha e por temer represálias por parte dos proxenetas que vigiavam a irmã, visto que esta era menor de idade.

Antes de deixar o consultório, mostra-se com remorsos por ter invejado a irmã, porque era mais atraente, e que uma parte de si se sentiu feliz quando esta desapareceu. Jenny e a mulher trocam um abraço nos momentos finais, antes de Jenny regressar à sua paciente seguinte e à vida de médica.

Como seria de esperar, tratando-se este de um filme dos irmãos Dardenne, a influência do realismo social nesta obra é evidente. Uma vez mais retratando uma área urbana na Bélgica, o filme explora vários subtemas dentro desta temática: nomeadamente a pobreza da população, visível quando Jenny visita alguns dos seus pacientes em consultas domésticas; a fragilidade humana, manifestada nas muitas doenças que Jenny tem de tratar nos seus pacientes; o adultério, representado no idoso casado que tem contactos regulares com prostitutas e no pai de Bryan, que persegue uma prostituta para relações sexuais; consequentemente, a prostituição, representada não só através da mulher desconhecida mas também da sua irmã e do medo que sente dos proxenetas; a agressão infantil, evidenciada pela personagem de Julien, quando revela que quis ser médico porque sofreu agressões físicas por parte do pai quando era criança; e suicídio, quando o pai de Bryan tenta pôr termo à vida para não ter de admitir a si mesmo e à polícia que foi culpado pela morte da rapariga.

 

Como acontece a Bruno em L’Enfant, no filme La Fille Inconnue o pai de Bryan é confrontado com o dilema de pagar um grande custo para ter o comportamento moral correto. Ao admitir a Jenny que não consegue dormir porque a mulher que deixou morrer não lhe sai da cabeça, o pai de Bryan não tolera que a doutora o julgue ou olhe sequer para ele, sentindo o peso da sua imoralidade no seu olhar.

 

Pressionado por Jenny, que lhe diz que tem de confessar à polícia, o pai de Bryan diz que não o fará porque tal significa perder o seu emprego, casamento e toda a vida que manteve até aquele momento, tal como em L’Enfant Bruno perde dinheiro para recuperar o seu filho e a liberdade para ilibar Steve. A mudança de comportamento e a constatação de que tem se assumir a verdade às autoridades só se sucede depois de se tentar suicidar.

O facto de considerar a morte em primeira instância em vez de se submeter às autoridades, prova que o pai de Bryan prefere morrer do que viver numa vida onde perdeu a família e o emprego. Ainda assim, como é hábito nos filmes dos irmãos Dardenne, é libertado do sentimento de culpa ao tomar a atitude correta perante a lei.

A libertação de Jenny, que se sente culpada por não ter aberto a porta à mulher e que a levou na demanda para identificar o seu nome, acontece posteriormente, quando a irmã da mulher anónima a visita e conta ela mesma a verdade num momento emocionante e catártico em que ambas as personagens se ilibam do sentimento de culpa que as atormentava e trocam um abraço.

Jenny iliba-se porque não permitiu que a mulher desconhecida fosse enterrada sem nome, uma vez que encontrou quem a pudesse ter identificado; e a irmã iliba-se ao identificar a mulher desconhecida, enfrentando os seus próprios medos e rancores.

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