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Manoel de Oliveira: o portuense que fez filmes até ao fim

Manoel de Oliveira: o portuense que fez filmes até ao fim

 

Estamos no dia 12 de dezembro de 1908, na cidade do Porto, em Portugal. No seio da família Oliveira, que profissionalmente estava muito ligada às artes industriais, nasce Manoel Cândido Pinto de Oliveira. Este homem, que se tornou tão bem conhecido dentro e fora de Portugal, seguiu as luzes do cinema e, muito graças às influências do pai, percebeu através de filmes de Charlie Chaplin e Max Linder que a sua vida e carreira teriam de passar obrigatoriamente pelas máquinas de filmar e cadeiras de realização.

E estava certo. Até aos 104 anos, idade com que morreu, Manoel de Oliveira realizou filmes de uma forma incansável e, sem temer o peso da velhice, continuou até ao fim a debater novos planos para futuros argumentos.

Neste post, revelamos um pouco da vida deste nome ilustre do cinema português que foi Manoel de Oliveira.

A vida e obra de Manoel de Oliveira

A infância de Manoel de Oliveira, para além das idas ao cinema proporcionadas pelo pai, passou pelo Colégio Universal, no Porto, e o Colégio Jesuíta de La Guardia, na Galiza. Nestes primeiros anos de juventude, destacou-se pela sua grande aptidão para o desporto. Era notável em modalidades como ginástica, natação, atletismo e automobilismo.

Mas a paixão pelo cinema falou mais alto. Aos vinte anos inscreveu-se na Escola de Actores de Cinema, fundada por Rino Lupo e participou num filme em 1928, com o título Fátima Milagrosa, onde surge ao lado do irmão como figurante.

Em meados de 1930 compra então a máquina Kinamo e faz a sua primeira filmagem, o ilustre filme Douro, Faina Fluvial. Para este trabalho contou com a ajuda de um fotógrafo amador, António Mendes e obteve a sua inspiração em Walter Ruttman, o realizador que filmou Berlim, Sinfonia de uma Capital.

Este seu primeiro filme ganhou grande destaque durante o V Congresso Internacional da Crítica. Estamos então a 21 de setembro de 1931. O filme, na sua versão muda, é apresentado perante uma plateia diversa. Como é óbvio, seguem-se as críticas dos cinéfilos e da imprensa: elogios por parte de alguns, criticas por parte de outros. Em Portugal o filme não foi muito aplaudido.

A lentidão dos planos e da ação são os principais pontos criticados. Porém, isso não deitou abaixo Manoel de Oliveira. Pelo contrário, foi uma particularidade que veio a definir o seu estilo enquanto realizador. Qualquer especialista em cinema que visualizar obras de Manoel de Oliveira rapidamente irá deduzir que o realizador dá sempre mais enfoque às palavras, à importância de cada gesto e à imobilidade da câmara.

 

Após a sua primeira estreia, parte para a Alemanha, onde tem a oportunidade de passar pelos estúdios da Kodak para melhorar as suas técnicas de realização. O regresso a Portugal, e de novo à cidade Invicta, lança então as sementes para o seu novo trabalho, e talvez o mais aclamado da sua carreira: Aniki-Bobó, de 1942.

Com este filme, considerado controverso por alguns, Manoel de Oliveira assume oficialmente a vanguarda do cinema neo-realista português, seguindo as pisadas de Rossellini, que tinha já realizado por esta altura Roma, Cidade Aberta. Para ler a nossa crítica a Aniki Bóbó, carregue aqui.

A nível pessoal, o ano de 1940 é muito importante para Manoel de Oliveira, que casa então com Maria Isabel Brandão Carvalhais. Descontente com as constantes reações negativas da plateia portuguesa, Manoel de Oliveira decide iniciar uma pausa na sua carreira e durante alguns anos mantém-se longe da realização. Aproveita a pausa para se dirigir a Alemanha do Leste e aí aprender técnicas de cinema a cores.

Em 1956, com o filme documental O Pintor e a Cidade, faz o seu regresso, utilizando pela primeira vez imagens a cores. O filme O Acto da Primavera, lançado em 1963, marca então um movimento histórico no cinema português: é filmada uma peça de teatro popular.

Mesmo assim, é só a partir de 1971, ano em que é lançado o filme O Passado e o Presente, que a carreira de Manoel de Oliveira começa a avançar a todo o vapor, sem interrupções durante quase trinta anos. Entre curtas e longas metragens, a carreira do realizador conta com mais de cinquenta filmes realizados. Entre os seus trabalhos, é de notar a realização de seis filmes que adaptam obras da autora Agustina Bessa-Luís. A realização de um sétimo filme, que adaptaria o último romance da autora, A Ronda da Noite, estava em fase de produção pela altura em que o cineasta morreu.

Em 1995, recebe o Prémio Carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), pela ocasião do primeiro século da história do cinema. Em 2008, ano em que celebra 100 anos, já era reconhecido por todo o mundo como “o mais velho realizador do mundo em atividade”. E a verdade é que assim se manteve até ao dia 2 de abril de 2015, quando morreu na sequência de uma paragem cardíaca.

 

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