“The Substance” e o Regresso do Body Horror Feminista ao Mainstream
Coralie Fargeat e o grito do body horror feminista
Coralie Fargeat não é uma realizadora de meias medidas. A sua estreia, “Vingança” (2017), já anunciava um cinema que usa o género para forçar o desconforto e obrigar o espectador a encarar o que normalmente prefere ignorar. Com “The Substance”, confirmou-se como uma das vozes mais singulares do terror contemporâneo.
O resultado foi um dos filmes mais comentados, debatidos e divididos de 2024-2025 — e um dos maiores êxitos comerciais da história da MUBI.
De que trata o filme
Demi Moore interpreta Elisabeth Sparkle, uma estrela de fitness em declínio que descobre um tratamento clandestino — “a substância” — que gera uma versão mais jovem e perfeita de si própria, interpretada por Margaret Qualley. O pacto, claro, tem um preço crescente.
A metáfora é tudo menos subtil: é um grito sobre a obsessão da indústria com a juventude e a forma como descarta as mulheres. Fargeat não tem interesse em disfarçar a intenção — a crueza da mensagem é parte do método.
Distribuído pela MUBI, o filme tornou-se o maior êxito comercial da história da plataforma, com cerca de 79 milhões de dólares de bilheteira contra um orçamento de 17,5 milhões. Para uma obra tão extrema, é um resultado impressionante que mostra como o público reconhece e recompensa a autenticidade, mesmo quando esta é visceral.
Cannes, Óscares e a consagração
“The Substance” causou sensação em Cannes e somou cinco nomeações aos Óscares, num percurso raro para um filme de terror tão explícito. Demi Moore venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical — o primeiro grande galardão individual da sua carreira desde 1991.
O discurso da atriz, em que referiu ter sido descartada pela indústria, foi um dos momentos mais comentados da temporada. A ironia de ganhar reconhecimento por um papel sobre o desprezo pela maturidade feminina é quase demasiado perfeita para ser acidental — mas é real. Analisámos o duelo de Melhor Atriz entre Moore e Mikey Madison em detalhe no nosso artigo sobre o duelo de Melhor Atriz dos Óscares.
A divisão da crítica
Seria desonesto apresentar “The Substance” como consenso. O filme divide: há críticos que o consideram uma obra-prima do feminismo pop, e outros que acham a mensagem tão óbvia que perde força ao longo de duas horas e meia.
O terço final, em particular, divide águas — há quem o considere uma apoteose de body horror, e quem o ache gratuito. Tal como aconteceu com «Sinners», é o género de terror a puxar os limites do que o público aceita. Poucos filmes recentes geraram reações tão físicas e opostas.
Esta polarização é, em certa medida, o ponto. Fargeat não filma para agradar — filma para perturbar. E num mercado cinematográfico saturado de conteúdo desenhado para ofender o mínimo possível, isso é, em si, uma posição política.
Para quem é (e para quem não é)
Avisamos sem rodeios: “The Substance” não é para estômagos sensíveis. As imagens de body horror são extremas e propositadas — não são gratuitas no sentido de serem sem propósito, mas são fisicamente difíceis de suportar.
Para quem aprecia terror corporal e cinema feminista sem condescendência, é dos títulos mais ousados da década, com duas atuações femininas memoráveis no centro. A edição física já circula em lojas como a Amazon Espanha.
Já viram “The Substance”? Ficaram do lado dos entusiastas ou dos céticos? A Coralie Fargeat é, para vocês, uma realizadora a seguir? Digam-nos nos comentários.
