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Luís Miguel Cintra: uma despedida que merece aplausos de pé

Luís Miguel Cintra: uma despedida que merece aplausos de pé

 

Na noite de sábado de 17 de outubro de 2015, Luís Miguel Cintra subiu ao palco do Teatro da Cornucópia, em Lisboa, para anunciar o final da sua carreira. Justificou-se com problemas de saúde, mas mais do que falar dos motivos do afastamento, o ator preferiu homenagear os 42 anos da companhia, mencionando todos os profissionais que dela fizeram parte.

A peça da despedida foi Hamlet de Shakespeare, na versão traduzida por Sophia de Mello Breyner e, na plateia, estavam nomes de várias gerações que com ele cresceram ou que o viram crescer. Entre eles, os ex-ministros, José Ribeiro e Augusto Santos Silva, e o ator, Nuno Lopes. Por cá, resolvemos fazer a nossa pequena homenagem ao transcrever parte de uma entrevista feita em meados de 2015, altura em que venceu o Prémio Pessoa.

Antes disso, comecemos então pelo princípio: afinal, quem é Luís Miguel Cintra? Filho de uma das principais figuras da linguística portuguesa, Luís Filipe Lindley Cintra, Luís Miguel Cintra nasceu em Madrid, onde apenas viveu dois anos. Iniciou-se no teatro em 1968, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Românicas. Ainda antes da Revolução de Abril, estudou teatro em Inglaterra, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1973, depois de regressar a Portugal, fundou com Jorge Silva Melo, o Teatro da Cornucópia, estrutura onde há mais de quatro décadas desenvolve o seu trabalho como ator e encenador. Em 1971, estreou-se no cinema, com o filme Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, de João César Monteiro, além das várias participações em produções de Manoel de Oliveira e de outros conceituados cineastas e realizadores portugueses como Paulo Rocha, Teresa Vilaverde e Maria de Madeiros.

Após a distinção com o Prémio Pessoa 2005, Luís Miguel Cintra sentiu, por parte dos colegas de profissão, o contentamento de verem reconhecida, pela primeira vez, a carreira de um homem ligado ao teatro. Durante a entrevista que lhe fiz, Cintra falou do Cornucópia, da importância da representação, da encenação e da cenografia. Também mencionou a passagem pelo cinema e o trabalho desenvolvido com vários profissionais de renome.

Goreti Teixeira (GT): Que repercussões teve no seu dia-a-dia a distinção com o Prémio Pessoa 2005?

Luís Miguel Cintra (LMC): As repercussões que tive e que me dão muita honra foi sentir que muita gente ficou contente por ter sido distinguido com este prémio, sobretudo, os meus colegas de profissão. Cumprimentos de pessoas da minha área que, de certa maneira, se sentem honrados, porque também estão englobados numa distinção que é feita ao teatro, mas que também me felicita pessoalmente. Para mim, é como se o prémio tivesse sido atribuído não só por aquele júri, como também pela minha profissão. É compensador perceber que a decisão do júri corresponde a um sentimento mais generalizado.

GT: Este galardão também poderá ser entendido como uma “chamada de atenção” para os momentos conturbados que o teatro tem vivido?

LMC: Não creio que tenha sido essa a intenção do júri. Em termos de opinião pública, creio que é muito útil e, de alguma maneira, uma forma de pressão junto das entidades governamentais, que um júri com o prestígio do Prémio Pessoa, com pessoas de áreas distantes da atividade teatral, considerem que esta é merecedora de um prémio a par das atividades científicas e artísticas de outras naturezas. O teatro é uma arte muito efémera e, normalmente, não traz dinheiro, só pede. Portanto, é mais difícil ser apanhado no apoio que outras artes, apesar de tudo, vão tendo. Espero que este prémio seja útil como dignificação da atividade teatral em geral.

GT: Já pensou o que irá fazer com o prémio?

LMC: Com o dinheiro?

GT: Sim…

LMC: Na sociedade em que vivemos, naturalmente, não se faz nada na vida sem dinheiro. Portanto, servir-me-á para viver. Mais do que isso não pensei, até porque acho que só serve ter dinheiro para não termos de pensar nele.

GT: Se tivesse de optar entre a representação e a encenação, qual das duas pesaria mais no prato da balança?

LMC: É muito difícil escolher, porque no fundo uma coisa ajuda a outra. Ajuda muito no meu trabalho de ator ter, também, o ponto de vista da encenação. Perceber muito bem como é que o meu trabalho se insere num conjunto que é, no fundo, aquilo que chega depois ao espectador, que é o conjunto feito pelo desempenho dos outros atores também, da cenografia, da iluminação, da maneira como o texto é posto em cena. O nosso trabalho de ator integrasse dentro disso. O mesmo acontece ao contrário. Como tenho experiência de ator é-me muito mais fácil perceber quais são os problemas que se põem aos atores quando estão a ser dirigidos e entender o seu ponto de vista. Creio que é muito mais fácil funcionar ao lado dos atores como encenador, tendo eu essa prática também. É claro que há um prazer especial em estar em cena e para o meu equilíbrio psicológico é muito importante representar. O que vai sendo difícil é fazer as duas coisas ao mesmo tempo, até porque cada vez espero mais dos meus colegas e preparo menos, de uma forma dirigista, as encenações. Conto muito com o que os tores trazem para os ensaios para construir, a partir daí, a encenação.

GT: O papel de tradutor é outra das suas facetas. O que mais o fascina nesta área?

 

LMC: O que tenho feito na tradução tem sido um trabalho que, no fundo, acaba também por ser de preparação para um espetáculo. Tenho traduzido muitos textos para, posteriormente, os encenar. O trabalho de tradução permite-me conhecer melhor o original, entrar dentro do espírito do texto, perceber até ao mais ínfimo detalhe quais são as palavras utilizadas e, a partir daí, tentar encontrar um correspondente em português. Como tenho formação em letras é uma coisa que me está no sangue. É um trabalho natural. Quando temos uma tradução que não é feita por nós, de certa maneira, o que estamos a representar não é o texto do original, mas sim do tradutor e, portanto, é muito mais forte a presença desse intermediário entre o espetáculo e o texto da língua original. No entanto, quando se confia e se admira esse intermediário como escritor, o prazer é duplo.

GT: Enquanto ator de cinema, há algum filme que o tenha marcado por alguma razão?

LMC: Como facto marcante, não posso deixar de me lembrar do primeiro filme que fiz com o João César Monteiro. Marcou a minha estreia no cinema e foi filmado por alguém que, desde sempre, admirei como um grande cineasta e com quem tive a oportunidade de trabalhar muitas vezes. Outro deles foi o primeiro filme que fiz com o Manoel de Oliveira. Uma película de sete horas, em francês, Le Soulier de Satin, de Claudel, e que marcou também o início de uma colaboração que se tem estendido ao longo de todos estes anos. Por último, A Ilha dos Amores, do Paulo Rocha.

Foram três filmes que marcaram bastante a minha carreira, mas tenho tido muitas oportunidades de trabalhar com realizadores portugueses que considero muito bons. Tenho conseguido aquilo a que se chama uma carreira invulgar no cinema, não necessariamente pela minha prestação, mas pelas pessoas que tenho tido como realizadores.

GT: E no teatro?

LMC: Não sei, porque entrego-me com imensa paixão a cada espetáculo que faço e o próximo é sempre o mais importante. E a cada um deles está sempre ligada uma experiência de vida muito forte. Nunca escolho os textos por acaso, mas sim porque me dizem qualquer coisa de muito profundo e, portanto, invisto toda a minha personalidade cada vez que levo alguma coisa à cena.

GT: Se não tivesse enveredado pelas artes teatrais, quem teria sido o Luís Miguel Cintra?

LMC: Não sei. Estive quase para seguir arquitetura, mas felizmente tive um professor excelente, o Mário Dionísio, que me chamou a atenção de que aquela área seria mais técnica e que eu, talvez, me interessasse mais pelas áreas artísticas. Fui parar a Letras e se não tivesse entrado no grupo de teatro da faculdade, provavelmente, seria professor de liceu.

GT: Foi várias vezes convidado para ser diretor do Teatro D. Maria II. Por que razão declinou sempre o convite?

LMC: Por alguma razão, sou muito fiel à estrutura em que tenho trabalho ao longo da minha vida e que é o Teatro da Cornucópia. Uma estrutura que é inventada pelos próprios criadores. Aqui não existe a distinção entre os que inventam os espetáculos e os que os produzem. O instrumento de trabalho que utilizamos é criado à medida daquilo que gostamos de fazer e precisamos e, isso, numa estrutura como o Teatro Nacional não pode existir. Sinto-me muito mais confortável como encenador e como ator na Cornucópia.

Em algumas das vezes hesitei, por responsabilidade pública, uma vez que o Teatro Nacional é uma entidade pública. No entanto, cheguei quase a aceitar o convite feito por um dos ministros, mas com a condição de se rever todo o apoio do Estado ao teatro antes de se solucionar a direção. Para mim, o Teatro Nacional só faz sentido como uma das partes do apoio do Estado à atividade teatral em geral. Mais importante do que dirigir o Teatro Nacional era regularizar, de uma forma correta, o apoio estatal ao teatro e depois logo se veria de que maneira é que este poderia colaborar. Este ponto de vista não foi aceite e, nesse caso, preferi ficar com a minha estrutura.

GT: Para si, o palco representa?

LMC: O palco representa um lugar de potencialização da vida. É um sítio onde as pessoas brincam, onde se estabelece um jogo, mas esse jogo é sobre a vida. No fundo, o que se passa no palco funciona umas vezes como espelho, outras como campo de jogos, mas sempre como uma potencialização da vida. E, pessoalmente, como ator significa a possibilidade de se inventar, de se imaginar tudo aquilo que a vida podia ser e muitas vezes não é.

GT: As palmas são o reconhecimento?

LMC: Significam o agrado dos outros que estão connosco. Considero o teatro um lugar de encontro com os outros. Se esse encontro é agradável, as pessoas aplaudem e isso é agradável para mim também.

 

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