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Como a proporção de tela pode ser usada pelos realizadores

Como a proporção de tela pode ser usada pelos realizadores

 

Quando vamos ao cinema ou vemos um filme diretamente a partir da televisão que temos em casa, mal damos conta de que certos realizadores usam uma ferramenta incrível que nada tem a ver com a qualidade da imagem. Esta ferramenta, que se encontra visível mas que ao mesmo tempo passa facilmente despercebida, é usada para tornar certos filmes mais emocionantes, para dar a ideia de que o telespectador está dentro do ecrã ou simplesmente para conferir um efeito mais realista à história.

Estou a falar do aspect ratio (a proporção da tela) que, numa explicação mais abreviada, é o espaço do ecrã ocupado com as imagens do filme. Ocupa o ecrã todo, por exemplo, ou deixa margens superiores e laterais? Numa explicação mais técnica, a proporção da tela é a relação matemática entre a as duas dimensões, que podemos obter pela divisão entre as medidas da largura e da altura daí ser representada frequentemente com números como (4:3 ou 16: 9).

Uma vez explicado o conceito de proporção de tela, retomamos à linha de pensamento original: de que forma os realizadores podem fazer uso da proporção para melhor contarem uma história? Foi isso mesmo que procuramos descobrir para escrever este artigo.

As proporções de tela mais populares

Existem atualmente inúmeras proporções de tela. Uma das proporções mais comuns é a 4:3, que se associa principalmente às imagens das primeiras televisões a chegar ao mercado assim como a quase todos os filmes que foram realizados durante a primeira metade do século XX. Esta é uma proporção de tela quase quadrada, muito associada a um estilo mais clássico e antigo, que ainda hoje continua a ser usada.

E temos ainda a proporção de tela 7:3, também conhecida como janela panorâmica ou anamórfica, que começou a tornar-se popular na década de 1950 e que tornava a imagem mais ampla quando comparada à 4:3. Entre outras proporções populares temos ainda a 5:3 – conhecida como janela europeia – que era principalmente utilizada entre realizadores europeus a partir dos anos 60 e ainda, em contra oposição, a janela norte-americana, também designada de 13:7, que instaurou uma verdadeira revolução nas salas de cinema dos Estados Unidos.

Mais recentemente (ainda que já existisse mais ou menos desde os anos 1980), começou-se a tornar bastante popular a proporção 16:9, emergindo lado a lado com as televisões de alta definição e que tem sido adotada por inúmeros canais televisivos, tal como produções cinematográficas.

De que forma pode proporção de tela ser utilizada?

Nas últimas décadas, têm sido muitos os realizadores a perceber o potencial das proporções e a procurar manuseá-las para contar as suas histórias e acrescentar-lhes um realismo cinematográfico totalmente diferente. Porque não usar, por exemplo, proporções 4:3 para cenas do filme que se referem ao passado ou a uma época em que tal proporção era popular e, no mesmo filme, usar planos mais amplos como o 16:9, demarcando assim ao olhar do espectador a presença de dois tempos distintos? É isso mesmo que acontece com o filme Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, que se passa em dois espaços temporais: 1932 e 1968. A utilização de proporções diferentes faz do filme, ao olhar do espectador, algo mais realista, quase como se tivéssemos a ver fotografias antigas e atuais no mesmo álbum.

Cena do filme a acontecer em 1932 – Grand Budapest Hotel (2014)

Cena do filme a acontecer em 1968 – Grand Budapest Hotel (2014)

Um outro filme que utiliza de forma exímia a utilização de diferentes planos é 500 Days of Summer. Neste filme, com planos muito artísticos e inovadores, que procuram essencialmente mostrar os sentimentos da personagem principal, vemos planos em 4:3 para se criar a ideia de que a imagem foi capturada por uma Polaroid. Além do mais, vemos ainda um dos planos mais emblemáticos do cinema: duas acções a acontecer em simultâneo, em proporções 4:3, lado a lado, que mostram o que se está a passar na realidade e as expectativas da personagem. Entretanto, a maior parte do filme conta com planos de 16:9.

 

Entretanto, existem outros filmes em que utilizar proporções apertadas não faria sentido. Um dos casos mais óbvios é o de Star Wars. Não faria sentido contar uma história sobre o espaço usando planos mais apertados: a utilização de planos amplos 16:9 permite ao espectador perceber a dimensão do Espaço.

O mesmo se sucede com o filme Interstellar, de Christopher Nolan, que combina planos 1.44:1 para mostrar a dimensão do espaço e a nave especial a circular no exterior e regressa a planos mais apertados, de 2.35:1, quando regressa à acção a acontecer dentro da nave espacial. O filme Apollo 13, de 1995, com a interpretação de Tom Hanks, segue a mesma regra.

Interstellar (2014) – Proporção 1.44:1

Interstellar (2014) – Proporção 2.35:1

Além destes efeitos que podem ser aplicados pelos realizadores, existem ainda aqueles que podemos ver em  Oz, o Grande e Poderoso e A Vida de Pi. No primeiro filme, realizado por Sam Raimi, podemos encontrar logo no início do filme planos 3:4, em preto e branco, quando somos conduzidos ao longo de uma feira de diversões. Numa das cenas, vemos uma espécie de feiticeiro a soprar fogo a partir da boca e a chama a alastrar-se ao longo do ecrã, indo além dos limites da proporção da tela. Já em A Vida de Pi, de Ang Lee, uma situação similar acontece, quando vemos os peixes voarem para além da proporção da tela, como se saltassem diretamente para fora do ecrã.

Oz, o Grande e Poderoso (2013)

A Vida de Pi (2012)

Estes são apenas alguns dos exemplos sobre a utilização de proporções de tela que podemos encontrar. De forma geral, isto significa que as proporções usadas podem de facto dizer muito sobre a história ou dar um outro efeito ao filme.

 

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