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Jafar Panahi e a Palma de Ouro: O Cinema como Ato de Resistência

Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2025

Jafar Panahi e a Palma de Ouro: O Cinema como Ato de Resistência

by Gonçalo Sousa

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Um realizador que filma apesar de tudo

Jafar Panahi é, desde há mais de uma década, um dos casos mais extremos de resistência artística no cinema mundial. O realizador iraniano foi detido, preso e proibido de fazer filmes pelo governo iraniano há cerca de quinze anos.

Apesar disso, nunca parou: rodou clandestinamente, por vezes em sua casa ou dentro de um carro, contrabandeando os filmes para fora do país. “Taxi” (2015), filmado quase inteiramente no banco de um táxi, é o exemplo mais célebre dessa criatividade nascida da repressão.

O feito histórico: os três grandes festivais europeus

Com a vitória em Cannes, Panahi completou um feito raríssimo: venceu o prémio máximo dos três grandes festivais europeus — o Leão de Ouro de Veneza (“O Círculo”, 2000), o Urso de Ouro de Berlim (“Taxi”, 2015) e agora a Palma de Ouro.

É apenas o quarto realizador da história a consegui-lo, depois de Henri-Georges Clouzot, Michelangelo Antonioni e Robert Altman. Um clube restríssimo, conquistado nas circunstâncias mais improváveis que se pode imaginar para um cineasta.

A vitória em Cannes acontece num festival que também consagrou outros cineastas do chamado Sul Global, como contámos na nossa análise ao cinema de Brasil e Índia na crítica mundial. Pode consultar a programação e os vencedores na página oficial do Festival de Cannes.

De que trata “It Was Just an Accident”

O filme parte de um pequeno acidente de viação — um homem atropela acidentalmente um transeunte — e desenvolve-se numa espiral de decisões morais e cumplicidades improváveis. É um thriller de câmara, rodado com poucos recursos e uma precisão cirúrgica que é a marca de Panahi.

Como em toda a sua obra, o filme usa uma premissa simples para falar de algo muito mais vasto: a forma como o medo molda as pessoas num sistema opressivo, e como a solidariedade pode emergir nos lugares mais inesperados. A restrição de meios não é um defeito — é o método.

A narrativa tem tanto de thriller policial como de comédia negra, e oscila entre os dois registos com uma destreza que só um realizador com décadas de experiência acumulada — mesmo que clandestina — consegue. É a compressão ao serviço da intensidade.

O percurso até aos Óscares

Depois da Palma de Ouro, “It Was Just an Accident” iniciou uma corrida à temporada de prémios com uma campanha séria rumo aos Óscares — a mesma corrida que viria a coroar «One Battle After Another» de Paul Thomas Anderson. O facto de os dois filmes coexistirem na mesma conversa prova a riqueza desta temporada cinematográfica.

Porque é que isto importa

É fácil aplaudir um realizador perseguido à distância e seguir em frente. Mas vale a pena resistir ao romantismo fácil. Panahi não faz filmes “apesar” da censura como quem ultrapassa um obstáculo simpático — fá-lo com risco real de prisão. Premiar a sua obra é também uma forma de a comunidade internacional pressionar um regime que continua a perseguir artistas.

Ao mesmo tempo, há que ter honestidade: prémios de festivais não libertam ninguém. Panahi continua sob restrições legais no Irão. O reconhecimento artístico e a liberdade política são coisas diferentes, e confundi-las seria uma forma de autocomplacência do mundo ocidental — aplaude, premia, e sente que fez algo.

O que Panahi representa, acima de tudo, é a prova de que o cinema é uma forma de resistência que não precisa de estúdios, orçamentos ou liberdade de movimento para existir. É uma lição que vai muito além de qualquer prémio.

Já conhecem a obra de Jafar Panahi? Qual o filme que mais vos marcou — “Taxi”, “O Círculo” ou outro? Deixem a vossa opinião nos comentários.

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