O Sul Global no Centro: Como Brasil e Índia Conquistaram a Crítica Mundial
Um ano em que o mapa do cinema mudou
Durante décadas, a conversa sobre “o melhor cinema do mundo” passou quase exclusivamente pela Europa Ocidental, pelos Estados Unidos e, ocasionalmente, pelo Japão ou pela Coreia do Sul. A temporada de 2025-2026 veio alterar esse mapa de forma significativa, com o Brasil e a Índia a conquistar a atenção da crítica internacional de uma forma que vai muito além do habitual.
Não se trata apenas de prémios. Trata-se de uma mudança de eixo na forma como os festivais, a crítica e o público ocidentais olham para o cinema feito fora das tradicionais capitais do cinema de autor.
O Brasil de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura
Em Cannes, Kleber Mendonça Filho venceu o prémio de Melhor Realização por “O Agente Secreto”, enquanto Wagner Moura arrecadou o de Melhor Ator. O filme acompanha Armando, um antigo professor envolvido na turbulência política da ditadura militar brasileira, tentando escapar à perseguição.
É memória, thriller e retrato de uma época — tudo ao mesmo tempo. Mendonça Filho já havia impressionado com “Aquarius” e “Bacurau”, mas “O Agente Secreto” parece ser a sua obra mais madura e formalmente sofisticada.
O sucesso prolongou-se na temporada de prémios, com várias nomeações aos Óscares de 2026, incluindo Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Moura. O mesmo festival consagrou outro gigante do cinema mundial, como contámos na história da Palma de Ouro de Jafar Panahi. Pode ver a ficha completa na página oficial do Festival de Cannes.
A Índia de Payal Kapadia
Do outro lado do globo, Payal Kapadia surpreendeu com “All We Imagine as Light”, um retrato delicado e poético de três mulheres em Mumbai — duas enfermeiras e uma jovem que procura um aborto seguro. Ganhou o Grand Prix em Cannes e tornou-se o primeiro filme indiano a competir no festival em décadas.
O que torna a obra de Kapadia tão especial é a sua recusa em ser exótica para o olhar ocidental. “All We Imagine as Light” não explica a Índia — habita-a, com uma intimidade que pressupõe uma audiência que já lá vive. É um gesto de confiança raro num cinema destinado à exportação.
Kapadia prepara agora uma trilogia sobre Mumbai, da qual “All We Imagine as Light” é a primeira peça. É um cinema lento, sensorial e profundamente político no que diz sobre classe, género e a vida urbana.
Esta Índia de autor convive, note-se, com a Índia popular e arrasadora de bilheteira que analisámos a propósito do fenómeno «Saiyaara»: são duas faces do mesmo país. Pode acompanhar a receção na página do filme no Rotten Tomatoes.
Porque é que isto não é apenas “exotismo”
É aqui que precisamos de sentido crítico. Há o risco de a Europa “descobrir” estes cinemas como curiosidades passageiras, premiando-os por moda e esquecendo-os depois.
A verdadeira mudança não está num ano de prémios, mas em saber se os festivais vão continuar a programar, distribuir e financiar cinema do Brasil, da Índia e de outros países habitualmente sub-representados. Prémios são momentos; estruturas são tendências.
Há também que questionar o próprio conceito de “Sul Global”. Agrupar o cinema brasileiro e o cinema indiano numa única categoria é útil para análise, mas pode obscurecer as diferenças enormes entre tradições, contextos políticos e indústrias. O que Kapadia faz é radicalmente diferente do que faz Mendonça Filho — e ambos merecem ser lidos nos seus próprios termos, sem a etiqueta redutora de “cinema periférico”.
Já viram “All We Imagine as Light” ou “O Agente Secreto”? Que outros cinemas do mundo acham que merecem mais atenção? Deixem a vossa opinião nos comentários.
