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“Eu nunca sou a personagem, sou sempre o António Durães”

“Eu nunca sou a personagem, sou sempre o António Durães”

É ator há mais de 30 anos. Os primeiros passos foram dados na Figueira da Foz, de onde é natural, como amador ainda muito jovem. Diz que a única opção que tomou na vida foi escolher o local para onde decidiu ir estudar teatro. Hoje divide o seu tempo também pela encenação e o ensino teatral na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo (ESMAE). Neste post, falamos-lhe de António Durães e ele fala connosco.

Ator profissional desde 1984, António Durães já atuou nas maiores salas de espetáculo do país. No currículo contam-se vários projetos, como a integração da Companhia de Teatro de Braga, do Teatro Nacional São João, do Teatro Nacional D. Maria II, do Seiva Trupe e muitos outros. Pelo caminho, cruzou-se com inúmeros atores de gerações mais novas e mais velhas, interpretando peças de dramaturgos nacionais e internacionais.

Apesar de o teatro ter sido a área onde mais se destacou, António Durães integrou alguns filmes e fez participações especiais em telenovelas e séries televisivas. É o caso de Conta-me como Foi ou O Beijo do Escorpião. Na memória estará o seu desempenho nas peças A Castro ou Um Hamlet a Mais. Neste artigo, recordo uma entrevista que fiz a António Durães, pouco depois de ter encenado o Auto da Índia.

Goreti Teixeira (GT): Encenou recentemente o Auto da Índia, de Gil Vicente agora em cena no Teatro do Campo Alegre. Pergunto-lhe o porquê desta escolha?

António Durães (AD): Em primeiro lugar corresponde a uma proposta da Seiva Trupe que queria fazer um espetáculo cujo público-alvo são os alunos do secundário. Pensaram no Gil Vicente e posteriormente em mim. E porquê? Creio que terá sido por ter feito algum trabalho, que por uma razão ou outra, chegou razoavelmente bem aos jovens das escolas, embora não trabalhe especificamente para esse público. Por qualquer motivo é verdade que desde o primeiro espetáculo que realizei – um texto complexo de Michel Tournier, que tinha uma relação muito estranha com a juventude – verificou-se que na transposição deste texto para componente prática essa aproximação aconteceu. Não foram apenas os jovens que se sentiram tocados por esse espetáculo. Foi uma experiência bastante interessante. Depois fiz outros espetáculos que funcionaram bem com esse ‘target’, como agora se diz, e talvez tenha sido essa a razão pela qual fui convidado pela Seiva Trupe para encenar esta peça.

GT: Quais foram as maiores dificuldades que encontrou para encenar o Auto da Índia?

AD: Há uma série de dificuldade quando se trabalha Gil Vicente. Uma delas é a palavra. Estamos a falar de um texto que tem uma organização muito precisa e específica. Por outro lado, mesmo em termos lexicais há imenso material que nós hoje já não identificamos e não compreendemos. Há uma espécie de língua diferente daquela que era falada na época e que era escrita por Gil Vicente e aquela que nós hoje entendemos e interpretamos bem. É uma outra diferença que podemos acrescentar. Depois existe uma terceira dificuldade que é o facto de hoje olharmos para Gil Vicente e colocarmos o autor num museu, na arqueologia dramática portuguesa, hispânica quase, mas certamente peninsular. Em muitos compêndios Gil Vicente é considerado espanhol, mas na dramaturgia peninsular está um bocadinho no museu. É o dinossauro que ali repousa que de vez em quando vamos lá todos fazer uma visita. Essa é uma condicionante grande.

Eu tive a felicidade de ter integrado o elenco de um projeto no Teatro São João, As Barcas, encenado por um italiano. Ele ajudou-me a olhar para um autor português com outros olhos. Essa experiência foi marcante. Hoje, um bocadinho como ontem, leio Gil Vicente com outros olhos e outros ouvidos. Tento entrar naquele mundo de maneira diferente, mas não fazemos nada de especial neste espetáculo. É olhar para aquele texto como nós atualmente olhamos para o que nos rodeia.

GT: Mas os temas que envolvem toda a ação, como o adultério, a ostentação ou o manter das aparências, acabam por ser atuais?

AD: Normalmente os grandes autores têm essa característica. As matérias que tratam acabam por ter atualidade e continuam hoje a merecer a discussão pública. Mas curiosamente há momentos em que o tratamento desses assuntos é mais acutilante e outros onde as coisas estão mais esbatidas. Neste momento, no contexto português não é particularmente importante a ida de um conjunto de homens para algures à procura de riqueza e de novos mundos. No entanto, antes do 25 de Abril de 1974, o Auto da Índia era de uma atualidade tremenda, com as guerras coloniais e as deslocações para Angola e Moçambique. Nos Estados Unidos e na Inglaterra o tema também era atualíssimo.

GT: Tem tido reações por parte do público escolar que vai ver a peça? O que eles aprendem nas aulas encontram-no em palco?

AD: Pessoalmente não, mas tenho esse feedback através dos atores, uma vez que não estou a acompanhar a carreira do espetáculo. Alguns atores fazem-me chegar informações de como os alunos vão reagindo ao que veem. Por outro lado, também obtenho reações da parte dos professores que me dizem que os alunos se têm divertido a vê-lo. Embora a peça fuja um pouco do conceito de aula, àquilo que é tratado objetivamente nas aulas do marinheiro português que vai a caminho da Índia, da mulher que fica cá e que se vai divertir imenso na sua ausência… Ao imaginarem a situação isso dá uma alegria inusitada aos jovens, coisa que não se verifica de todo no espetáculo. Existem até alguns problemas quase existenciais que a peça eventualmente pode suscitar.

 GT: É importante que autores como Gil Vicente, Fernão Lopes, Bocage ou Camilo Castelo Branco continuem a ser estudado nas escolas, uma vez que foi posta a hipótese de os retirar do programa de português?

AD: Estou completamente fora do universo dos senhores que fazem e desenham os programas escolares. Diria que se Gil Vicente não constar do calendário escolar, pelo menos nalgum dos anos de ensino obrigatório, muito mal vai o ensino em Portugal principalmente o da língua portuguesa e da memória que nós temos dos nossos saberes. O mesmo se pode estender a Os Lusíadas e a alguns temas da literatura dramática como caso do Frei Luís de Sousa. Nós já não temos uma dramaturgia tão vasta e tão interessante quanto isso. Se as coisas que vão pontuando a nossa dramaturgia são retiradas do contexto do ensino obrigatório, acho que não estamos a seguir o caminho certo.

GT: Como é que vê o teatro que se vai fazendo em Portugal?

AD: Tenho várias opiniões mediante o ponto de vista. De há muitos anos a esta parte é costume dizer-se que o teatro está em crise. Eu acho que desde sempre. No entanto, sendo verdadeira a expressão ela é muitas vezes empolada. Está em crise porque tem de estar em crise. É uma arte praticada por poucas pessoas e vista por não muitas. Mas mesmo do ponto de vista da estratificação do teatro as coisas não estão bem resolvidas. Passo a passo, as coisas foram sendo mal resolvidas em função inclusive da nossa história recente. Paulatinamente tem vindo a ser recuperada a tradição do teatro dito comercial, mas de qualidade que é feito para muita gente como acontece, por exemplo, em Lisboa.

O teatro de revista está em crise, provavelmente perder-se-á mais dia menos dia, mais ano menos ano, mais década menos década. E é uma pena porque também está ligado às tradições portuguesas. Um teatro também dito popular se já não acabou corre também sérios riscos de acabar, o que é um crime de lesa cultura. Tradições como aquelas que acontecem em Trás-os-Montes, que são feitas pelo povo e que estão muito próximas inclusive do teatro pré-vicentino.

Na zona da Figueira da Foz, por exemplo, existem as tradições dos autos pastoris na altura do Natal e que pouco a pouco têm vindo a desaparecer. A tradição passa de pais para filhos, mas o interesse dos filhos hoje não é o mesmo e, na prática teatral, se não se pegar nesse material é uma pena deixá-lo morrer. Neste não estratificado teatro português há um conjunto de valores que está em risco de se perder. Por outro lado, do ponto de vista político, o teatro nunca foi tão pouco apoiado como tem sido nestes últimos anos. A luta que uma série de companhias tem feito para se manter vivas tem sido heróica e se isso não mudar rapidamente muito do trabalho que foi feito perde-se.

É muito difícil lidar com espectadores que por natureza são um bocadinho preguiçosos para as coisas da cultura. É difícil manter uma relação com esses espectadores pouco motivados, pois quando estão a ser motivados quebra-se esse vínculo e essa construção de motivação que as unidades de produção teatral não têm capacidade de manter

Por outro lado, e ao contrário disto tudo, temos cada vez mais gente bem preparada a fazer teatro. Temos um conjunto de actores fantástico, não apenas enquanto criadores teatrais, mas mesmo do ponto de vista ético. Pessoas bem formadas capazes de responder às perguntas que o teatro hoje coloca. E só essa valoração ética do teatro pelos actores é que permite que apesar do revés político do poder central as coisas não tenham descambando mais do que já aconteceu.

GT: Algumas pessoas com quem conversei na rua sobre teatro atribuíam a culpa deste afastamento às questões de horários e de dinheiro. No entanto, houve também quem me dissesse que algumas das propostas trazidas à cidade são para pessoas de uma faixa intelectualmente mais elevada…

AD: Acho que essa ideia entronca na questão da estratificação do teatro. Se calhar à menos teatro comercial do que devia haver, assim como teatro musical. Há menos uma série de coisas que deveriam existir e que de alguma maneira faziam a ponte com o teatro que no meu caso gosto de fazer. Nesta escada teatral esses degraus foram partidos e as pessoas precisam de dar saltos muito grandes para serem capazes de ser levados pela mão para verem esta ou aquela produção. É evidente que há uma outra produção que está no âmbito do teatro já dito experimentalista, apesar de não termos capacidade para ter um teatro deste género, mas que estão muito para além das propostas tradicionais. Essa realidade existe, mas não por culpa dos fazedores de teatro. A culpa desta situação assenta na estratégia teatral portuguesa que não consolidou uma série de degraus que suportavam esta outra possibilidade. Enquanto não existirem as escadas que lhe dão acesso é difícil saltarmos lá para cima e ficarmos confortável ou desconfortavelmente a ver essas produções.

GT: Essa situação também passará pelo facto das pessoas não estarem educadas para receber as propostas culturais?

AD: O que falta é dar capacidade às estruturas de produção teatral para promoverem bem os seus espetáculos. Os subsídios que dão aos grupos mal chegam ou nem chegam para a sua produção. E se as pessoas não têm dinheiro para fazer a produção dos seus espetáculos, como é que fazem a promoção? As pessoas hoje vão ao teatro ver produções como Morangos com Açúcar ou uma série de experiências que são muito suportadas pela televisão. Essas equipas têm a felicidade de terem a máquina televisiva por detrás que coloca os seus produtos com uma enorme visibilidade, coisas que as unidades de produção teatral tradicional não têm. Enquanto esta situação também não estiver resolvida é difícil romper este ciclo.

GT: Enquanto professor preocupa-lhe o futuro dos seus alunos, nomeadamente se haverá mercado para os receber?

AD: Gostava de lhe responder que não e há um conjunto deles que não me preocupa rigorosamente nada, porque serão fantásticos profissionais de teatro. Há outros, e eles certamente já o sabem, que se calhar não vão ser atores, mas podem fazer outras coisas como serem bons professores. Digamos que me preocupa se o sonho que acalentam ao longo deste tempo não se concretiza, mas isso é a lei da vida. Os melhores se tiveram sorte, porque as coisas também se passam no campo da oportunidade, conseguem alcançar os seus objetivos. É preciso estar no sítio certo, no momento certo e na hora certa, independentemente do talento. Aqui não posso dizer que são todos fantásticos, mas digo que muitos serão bons profissionais, assim sejam bafejados pela sorte.

GT: Incomoda-o ver pessoas que não têm formação em teatro, nomeadamente manequins e apresentadores, que acabam por entrar em novelas e outros projetos retirando de certa maneira o lugar aos que têm?

AD: Incomoda-me muito, porque na primeira curva são cuspidos da carruagem pela própria máquina que os chamou e incentivou. Provavelmente vão sofrer grandes desgostos e vão ser infelizes. Isso incomoda-me, agora se vêm tirar lugar aos outros, não. Se um indivíduo é bom naquilo que faz, a oportunidade há-de aparecer. Acontece também com pessoas que vêm do mundo da moda ou de outro sítio ganharem prática e tornarem-se bons atores. O meu incómodo vai de encontro a uma perspetiva humana e não profissional. É evidente que isto está tudo errado, mas as pessoas querem que seja assim…

GT: Quando apercebeu que queria seguir esta carreira?

AD: Nunca senti click nenhum para ser ator. As coisas foram acontecendo e nunca fiz grandes opções. Lembro de ter feito uma opção na minha vida que foi decidir onde queria ir tirar o meu curso. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e fui sendo levado pela torrente. Desse ponto de vista sou um felizardo ou um infeliz, porque nunca tive esses problemas existencialistas de pensar o que vai ser de mim quando for grande.

Fiz muitas coisas diferentes. Já fui empregado de mesa, andei com carrinho de lixo, trabalhei em fábricas, estudei… Trabalhei nas coisas mais variadas e não fiz propriamente opções.

GT: Alguma vez pensou em desistir?

AD: Penso imensas vezes fazer outras coisas. Não digo desistir porque é uma palavra muito forte. Se um dia decidir fechar esta porta não irá acontecer nada de especial, não sou dos que dizem: “ai, se não fizer teatro morro”. Não morro coisa nenhuma. Posso morrer por outras razões do coração, de uma trombose ou de velhice que seria muito agradável.

Às vezes penso que se sofre demais para fazer teatro, mas chego logo à conclusão de que se sofre muito em todo o lado. Para mim, antes do pano abrir, aqueles minutos de espera são muito violentos e as coisas estão a ser cada vez mais difíceis e pesadas. Pensava que à medida que os anos fossem passando e os espetáculos se fossem repetindo se tornaria mais fácil, mas acontece exatamente o contrário.

GT: Consegue sair facilmente da personagem?

AD: Eu nunca sou a personagem, sou sempre o António Durães. O António Durães que para fazer este ou aquele papel vai procurar dentro das suas memórias as referências para fazer a personagem. Não encarno coisa nenhuma. Não há nada de metafísico, nem espiritual. Eu sou o cidadão António Durães que faz a vida que toda a gente faz e que também faz teatro. Nada mais do que isso. A brincar com os meus amigos digo muitas vezes que faço teatro como o meu pai fez pão, que era padeiro. Os meus dramas são os dramas que ele tinha: Será que a massa está boa? Será que levedou? Será que o forno está na temperatura certa? Faço o meu trabalho da mesma maneira e com a mesma paixão.

GT: Há algum papel que lhe tenha ficado na memória?

AD: Vários. Cada trabalho é importante sobretudo quando o estamos a fazer. Depois o tempo passa, olhámos para trás e pensámos: que coisa estranha que fiz. Às vezes sabemos no momento que as coisas estão a sair ao lado, talvez porque estamos muito envolvidos e não somos capazes de destrinçar o certo do errado. Houve um espetáculo que fiz na Figueira da Foz, que não marca a minha passagem para o profissionalismo, mas foi o último espetáculo que fiz enquanto ator amador antes de ir estudar teatro. Chamava-se Despedida de Solteiro e a partir daí sabia que as coisas iam mudar. Há um outro que também me marcou e que foi o primeiro espetáculo que fiz como encenador e, não por acaso, voltei a reunir esses amigos da Figueira.

GT: E autores?

Adoro Shakespeare. É um dos grandes poetas que temos a oportunidade de ler. Dizer as suas palavras é um grande privilégio. Gosto muito das palavras que as pessoas escrevem independentemente de ser ou não para teatro.

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