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Camille Claudel: entre a escultura e a loucura

Camille Claudel: entre a escultura e a loucura

 

Esta reflexão surge no seguimento da minha intervenção sobre a abordagem cinematográfica de Camille Claudel, no 1º Seminário Arte e Psiquiatria, ocorrido no Centro Hospitalar Conde de Ferreira (Porto).

Analiso para isso 3 filmes que retratam a vida da escultora francesa: “A Paixão de Camille Claudel” (1988), de Bruno Nuytten; “Camille” (2011), de Carme Puche e Jaime García; e “Camille Claudel 1915” (2013), de Bruno Dumont.

A abordagem cinematográfica de Camille Claudel

Em “A Paixão de Camille Claudel” (1988), de Bruno Nuytten Camile Claudel é interpretada por Isabelle Adjani, também produtora do filme.

O filme retrata o início da carreira da jovem artista francesa e a sua relação com o escultor Auguste Rodin.

Este filme, sendo uma obra de ficção mas que adapta ao grande écran a vida de Camille a partir do livro de Reine-Marie Paris, familiar de Claudel, tenta ser o mais realista possível em termos de direção de atores e de imagem, nomeadamente de direção artística e fotográfica.

A personagem de Camille transforma-se completamente na segunda parte do filme

No momento de cisão final da relação entre Camille e Rodin é-nos apresentado um plano cuidadosamente preparado que poe a par a escultura “A Suplicante” com a personagem, que está num momento de viragem do filme.

Na sua última exposição Camille transfigura-se! A sua performance, aliada ao guarda-roupa e maquilhagem escolhidos exibem uma grande metamorfose da personagem. Percebemos que Camille Claudel está de facto perturbada.

No final do filme somos confrontados com um plano pormenor do momento em que Camille é retirada de casa e enviada para o Hospital psiquiátrico Ville-Évrard, próximo de Paris. Uma vez mais o plano é composto de forma a vermos uma Camille Claudel suplicante, assemelhando-se ao pormenor da sua estátua.

Este plano mostra uma Camille atrás das grades, ou seja já “presa”, que é levada para longe. O filme termina com um monólogo da personagem ainda dentro da carruagem mas que antecipa os anos de clausura da artista.

O filme esteve nomeado para dois óscares e recebeu cinco césares, nomeadamente o de melhor filme e melhor atriz. Recebeu ainda um urso de prata para a melhor atriz.

A curta-metragem “Camille” (2011), de Carme Puche e Jaime García venceu no mesmo ano o Prémio de melhor argumento no Festival de Sitges – Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, Espanha.

O filme tem início no momento em que Camille Claudel é retirada de sua casa para ser institucionalizada.

Também neste filme a direção de atores e de imagem é muito realista, em que foi novamente consultora Reine-Marie Paris, familiar de Claudel.

Internada no Hospital psiquiátrico durante toda a curta-metragem, Camille escreve uma carta ao médico que apoiou a sua família a interná-la.

Próprio do formato de curta-metragem é ser um formato mais experimental, o que permite quebrar algumas regras e ser um pouco mais metafórico e poético. De modo discreto, retrata uma Camille Claudel reclusa mas de aparência muito sã.

O formato experimental deste filme permite ainda aos autores “darem vida” a algumas das suas obras mais conhecidas. As obras de Claudel são bastante dinâmicas, parecendo ter vida própria, pelo que parece ter sido fácil fazer esta adaptação.

Personagens sem identidade encenam as poses dos personagens das estátuas de Claudel e os seus possíveis movimentos. Também a escolha dos enquadramentos e movimentos de câmara exacerbam os movimentos das estátuas.

Por exemplo, a encenação de “A Valsa”, retrato de um casal dançando num equilíbrio instável com expressão de considerável intensidade; e a encenação da escultura “A Suplicante” também muito intensa.

 

Estas imagens levam-nos para um “outro mundo”, uma “outra dimensão”, própria dos pensamentos e dos sonhos que nos aproxima de uma metáfora do “pensamento” de Camille, que vive “fechada na sua mente” e obcecada com as suas obras. Obras estas que retratam também metáforas da sua vida e separação de Rodin.

A longa-metragem “Camille Claudel 1915”, realizada por Bruno Dumont em 2013, apresenta os últimos anos de clausura da escultora, no asilo de Montdevergues, no sul de França

O filme de Dumont, baseado na correspondência da artista, retrata a vida da escultora reclusa, desta vez interpretada por Juliette Binoche, esperando a visita do seu irmão, o poeta Paul Claudel.

Estamos no Inverno de 1915. Camille Claudel está completamente apática no início do filme. Percebemos de imediato que algo não está bem com a personagem. Aos poucos revela a essência de uma pessoa aparentemente sã no meio de personagens que de imediato percebemos como alienadas e com claros atrasos mentais.

Ao longo do filme começamos a perceber que também Camille Claudel é desequilibrada. Apesar do seu comportamento aparentemente normal, e de em algumas situações ajudar os funcionários do asilo em tarefas do mesmo, começamos a perceber que também ela sofre de Delírio e não tem capacidade para tomar conta de si própria.

Excecionalmente o seu médico deixa que Camille cozinhe as suas próprias refeições pois se não ela não comeria. Esta está convencida de que Rodin a quer envenenar para roubar as suas esculturas e que para isso é capaz de tudo, congeminando para a matar.

Percebemos na sua conversa com o seu médico que Camille não tem qualquer contato com Rodin há muitos anos. Neste filme compreendemos ainda a sua relação com o irmão e um pouco da educação e génio de ambos.

Camille não voltará a esculpir.

Nomeado para o Festival Internacional de cinema de Berlim, de Tallin, entre outros, ganhou cinco prémios internacionais para melhor atriz e melhor filme.

Em modo de conclusão resta-me referir que estes são três belos filmes. Três obras de arte que retratam uma artista.

No primeiro filme somos confrontados com o facto de que esta é uma situação que pode acontecer a qualquer pessoa, no caso retratado uma vítima de uma injustiça real.

Todos os filmes, embora de estética muito distinta, terminam com a última imagem conhecida de Camille Claudel.

Enquanto no filme de Nuytten (1988) é usada uma fotografia de Camille, no filme de Carme Puche e Jaime García (2011) a mesma imagem é encenada pela atriz que desempenha o papel de Camille, neste caso porque a aparência da atriz, Mercè Montalà é mais próxima da imagem retratada.

Montalà tem uma figura inquietante já que a personagem está em pose, muito reta. A duração do plano permite-nos contemplar o seu olhar triste, o seu corpo tenso do frio, da idade e da clausura. A música de Jordi Rabascall desempenha um importante papel nesta sequência final dando um tom dramático quanto baste.

No filme de Dumont (2013) Binoche está sentada no jardim após a visita do seu irmão pelo que a sua expressão é um pouco menos pesada, deixando, a meu ver, um pouco de esperança no ar.

Para terminar gostaria de relevar o importante papel do cinema na consciencialização social e também a atuação terapêutica que pode ter não só nos espetadores mas também nos seus autores.

Os cineastas escolhem, não raras vezes, trabalhar situações pertinentes, neste caso uma clausura prolongada aparentemente injusta, para espalhar a mensagem e tentar evitar que situações similares persistam.

 

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