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The Crown: a série da Netflix que tenta humanizar a família real

The Crown

The Crown: a série da Netflix que tenta humanizar a família real

 

The Crown (A Coroa), a muito antecipada série da Netflix, estreou no passado dia 4 de novembro para a sua primeira temporada. Tendo como protagonista a Rainha Isabel II do Reino Unido (interpretada pela brilhante Claire Foyle) a série relata-nos, ao longo dos primeiros 10 episódios, a ascensão da jovem princesa ao trono depois da morte do pai, George VI, que pereceu inesperadamente, vitima de um cancro nos pulmões.

Como muitas outras pessoas, ao longo dos últimos meses acompanhei notícias de promoção à série. A notícia que provavelmente se destacou mais foi a de que se tratava da série mais cara da história do Netflix, tendo recebido um orçamento superior a 150 milhões de dólares norte-americanos. Este, porém, foi um dado mal interpretado pela imprensa. Afinal não eram 150 milhões de dólares mas sim 100 milhões e estes diziam respeito à produção de duas temporadas (já que a segunda foi confirmada antes mesmo da estreia da primeira temporada).

Ainda assim, percebi que teria de ver a série assim que ficasse disponível no Netflix. Não apenas por ser uma das maiores produções originais da plataforma de streaming, mas também porque sempre tive um fascínio pela história britânica e pelo mediatismo que gira em torno da família real. Por isso não fiquei admirado comigo mesmo quando comecei a ver a série vi logo três episódios seguidos.

Neste post procuro fazer uma breve review da primeira temporada sem apresentar spoilers significativos para todos os que estiverem interessados em ver.

The Crown: propaganda à monarquia britânica?

The Crown é entendida por muitos como uma série de propaganda à monarquia britânica e, por isso mesmo, acho que devo começar este post por esta mesma questão. É muito provável que sinta estar a ver propaganda, camuflada como forma de entretenimento, enquanto vê os episódios. A série leva-nos diretamente aos bastidores de um mundo que nunca antes vimos, para lá das portas de Buckingham Palace e Downing Street, transportando-nos diretamente para a vida privada de figuras públicas e para acontecimentos históricos que conhecemos apenas dos livros de história ou da televisão.

Ainda assim, Peter Morgan – o criador da série The Crown, que tinha já escrito o argumento do filme A Rainha, em 2006 e a peça de teatro The Audience – procurou apresentar um retrato factual dos acontecimentos que marcaram o reinado de Isabel II. Em entrevistas à imprensa britânica, Peter Morgan admitiu nunca ter privado com a família real de forma a não ser influenciado no seu processo criativo. Aliás, como contou à imprensa, encontrar a Rainha seria um momento muito embaraçoso já que passou mais de metade da sua carreira a imaginar a vida privada da monarca.

Assim sendo, livre de qualquer ligação à monarquia, Peter Morgan limitou-se a escrever uma série que presta homenagem à História. Neste processo, procura interpretar momentos registados por historiadores e encontrar emoções que tornem personagens reais em figuras mais humanas. Mostrar que a Rainha é capaz de chorar, sorrir, falhar e lutar.

The Crown: realidade e ficção elegantemente intercaladas

A série começa com o casamento da Princesa Isabel com Philip Mountbatten, o Duque de Edimburgo. Logo nas primeiras cenas percebemos que não é fácil fazer parte da Monarquia… até mesmo quando já se faz parte da realeza. A série abre com o Rei George VI (Jared Harris) a condecorar Philip  – após renunciar a sua antiga nacionalidade, assim como os títulos de Príncipe da Grécia e da Dinamarca – com o título de Duque, permitindo que adquira o estatuto digno para se casar com a herdeira do trono. E é assim que The Crown nos surpreende pela primeira vez quando Philip (interpretado por Matt Smith) beija a Princesa Isabel II, arriscadamente, quando ninguém os está a ver. Se o beijo foi verdadeiro ou não, não sabemos mas de uma coisa temos a certeza: poderia perfeitamente ter acontecido.

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Entretanto, é lançado o mote para toda a história e é brilhante assistir de perto, como se estivéssemos na primeira fila, a eventos que conhecemos das capas de revistas ou fotografias. Quem nunca viu uma fotografia do dia de casamento da Isabel II? A série da Netflix permite-nos estar lá, acompanhar a Princesa na sua descida até ao altar e perceber, mesmo até ao momento em que aceita o Duque de Edimburgo como seu marido, que nem aí parece segura de si mesma.

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Mas este é apenas um dos momentos a que podemos assistir na primeira temporada que decorre entre 1946 e 1954. Neste período podemos assistir então a momentos históricos como a morte do rei George VI, a coroação de Isabel II – que ainda hoje é lembrada como um dos primeiros eventos a ser transmitido em direto na televisão –, o episódio do Grande Nevoeiro de 1952 e ainda a eleição de Winston Churchill (interpretado por John Lightgow ) para o seu segundo mandato como primeiro-ministro, formando um governo que foi demarcado por uma série de crises, entre as quais a própria debilitação de Churchill, que tinha 76 anos pela altura da eleição.

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Todavia, lado a lado com os acontecimentos históricos, The Crown explora a vida íntima da família real: as complicações do casamento real, o ajuste do Duque Phillip à sua condição como consorte e até mesmo o esforço, por parte da Rainha Isabel II, para ser uma rainha à altura do seu povo. No episódio 7, vemos mesmo como a Isabel II reconhece falhas na sua educação e procura a ajuda de um tutor para lhe ensinar os básicos da cultura geral.

O peso dos plots secundários

Ainda assim, além do enredo principal que é obviamente dedicado à Rainha Isabel II, não posso deixar de louvar o talento de Peter Morgan para abordar personagens secundárias. Uma das histórias que mais gostei de acompanhar nesta série foi a relação escandalosa da Princesa Margaret (Vanessa Kirby), irmã mais nova de Isabel II, com Peter Townsend (Ben Miles), o antigo palafreneiro do rei George VI. A relação de uma princesa com um homem divorciado e as implicações que trouxe à Coroa são detalhadamente contadas, explorando os sentimentos de cada personagem envolvida e mostrando como Isabel II é forçada, pela própria Coroa, a agir contra os desejos da irmã.

É o caso perfeito – e real – para se entender uma das personagens mais escandalosas da história recente da monarquia e para se explorarem as personagens e as relações de afeto que as une.

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Uma outra personagem que adorei conhecer no ecrã – e que já conhecia do filme O Discurso do Rei e de um episódio de Downton Abbey – foi David Windsor, brevemente conhecido como Edward VIII (Alex Jennings) que governou entre janeiro e dezembro de 1936 antes de trazer um dos maiores escândalos da Monarquia: apaixonar-se por uma norte-americana divorciada duas vezes. Para quem precisar de reavivar a memória, a lei britânica não permitia que o seu soberano pudesse casar com uma mulher anteriormente casada. Assim, após muita ponderação e um escândalo que fez correr tinta na imprensa, Edward VIII abdicou do seu lugar no trono, passando a coroa ao seu irmão mais novo, George VI, e tornando-se assim na ovelha negra da família.

Em The Crown, temos um vislumbre da vida de David Windsor e da sua esposa, Wallis Simpson. O casal que continua a ser marginalizado pela família real volta a entrar em cena quando George morre e David decide regressar a casa para o funeral do irmão. Mas esta é uma visita atribulada. Os ressentimentos falam mais alto, tanto por parte de David como por parte da sua própria mãe e cunhada. Conhecemos detalhes muito privados desta relação, como o facto de Edward ter alcunhas maldosas para cada elemento da família.

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Ainda assim, eventualmente acabamos sempre por ter alguma compaixão por David, o homem que pôs a coroa de lado para seguir o coração e percebemos como a coroa pode ser cruel com os seus.

A todos estes detalhes históricos, tão delicadamente contados e explorados, soma-se a produção da série. É tudo extremamente realista e detalhado, os cenários trabalhados para replicar o interior dos palácios reais e até mesmo as peças de roupa estudadas e desenhadas cuidadosamente para serem verdadeiras réplicas daquelas que vemos através das fotografias e vídeos.

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O elenco, por sua vez, é assustadoramente verosímil. Basta conhecermos as personagens reais da Monarquia Britânica para as identificarmos facilmente ou acompanharmos a nossa visualização com pesquisas no Google, tal como fui fazendo, para comparar o real com a adaptação.

A série The Crown conta com uma segunda temporada confirmada que deve estrear no Netflix em novembro do próximo ano. No total, estão planeadas 6 temporadas que se focarão no reinado de Isabel II até à atualidade.

 

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