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Aniki Bóbó: crianças junto ao Douro como metáfora à vida

Aniki Bóbó: crianças junto ao Douro como metáfora à vida

 

O filme Aniki Bóbó, do cineasta português Manoel de Oliveira, foi realizado em 1941, numa época negro para a história da humanidade. Apesar de por esta altura existir tranquilidade em território português, o mesmo não se podia dizer de alguns dos nossos vizinhos europeus, atormentados diariamente por bombas, batalhas e tragédia. Extraordinariamente, não é feita nenhuma menção à Segunda Guerra Mundial no filme Aniki Bóbó. No entanto, não é por isso que o filme passar a ser menos sério.

A primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira recorre à linguagem infantil e inocente das crianças para abordar temas como a morte e a vida, quebrando na altura (e ainda hoje) certas convenções. Como veio mostrar ao longo da sua longa carreira cinematográfica, Manoel de Oliveira não teve medo de ser “diferente”, mesmo que a audiência não o aplaudisse como era merecido.

Terminadas as apresentações, deixem-me agora contar como conheci Aniki Bóbó. Tive a sorte de conhecer este filme sobre crianças quando era criança. Com 12 ou 13 anos de idade, assumia a Matemática como inimiga e fui encaminhado para a casa de uma tia que me deu explicações durante alguns meses. O melhor dessas explicações não eram os exercícios nos cadernos aos quadradinhos mas sim os lanches com chocolate quente e os intervalos a ver as velhas cassetes de filmes da minha tia.

Uma dessas cassetes, com a capa toda branca e uma imagem central a preto e branco, era a do filme Aniki Bóbó. Assim que a minha tia colocou a cassete no leitor de VHS, a primeira coisa que me fascinou não foi o facto de o filme não ter cores. Já estava habituado a ver filmes a preto e branco, porque o meu pai sempre gostou muito de Charlie Chaplain. Não: o que me fascinou foi o facto da minha cidade aparecer na televisão. E o facto de que as personagens principais não eram muito mais novas do que eu.

Hoje, guardo boas memórias do filme. A cantigueta que dá nome a Aniki Bóbó ainda hoje me está na cabeça: “Aniki-bébé, aniki-bóbó, passarinho Tótó, berimbau, cavaquinho, salomão, sacristão: Tu és Polícia, tu és Ladrão”. Tratava-se de uma lengalenga cantada para decidir quem é quem no jogo polícia e ladrão. Ensinei-a à minha irmã e ainda hoje a cantamos quando nos dá na gana.

Porém, eis agora uma coisa curiosa:  anos mais tarde, quando revi o filme, percebi que a minha perceção tinha mudado. Aquele era um filme de crianças, mas não propriamente para crianças. Neste post, vou tentar explicar melhor o que quero dizer com isto.

Aniki Bóbó: tu és policia, tu és ladrão!

Ora bem, antes de mais falemos das personagens. A personagem principal de Aniki Bóbó é Carlitos, um jovem rapazito que brinca com os seus amigos nas margens do rio Douro. É aí que conhece Teresinha, a encantadora rapariga por quem se apaixona e cujo amor é disputado também pelo mauzão Eduardo, um rufia que quer conquistar Teresinha para si mesmo.

 

No início do filme, ao passarem por uma loja junto ao rio, Teresinha fica de imediato interessada numa boneca que está na montra. Numa tentativa de conquistar o coração de Teresinha, Carlitos decide comprar a boneca e não tarda a abordar o lojista sobre o assunto. Mas as coisas não correm bem: Carlitos nunca conseguirá pagar pela boneca, nem mesmo se partir o seu porquinho mealheiro.

O que decide fazer? A resolução ao problema é mais simples do que parece: roubar a boneca. Este é o acontecimento que lança o mote para todo o filme. Nas sequências que se seguem, acompanhamos Carlitos nos seus muitos dilemas entre o que está certo e o que está errado. E esperamos ansiosamente pelo momento em que algo de mau vai acontecer, porque sabemos desde o início do filme que uma personagem fica em risco de vida.

Aniki Bóbó abre com um flashfoward de um dos momentos do fim do filme: a queda de Eduardo num caminho-férreo e o grito de Teresinha, à medida que o comboio passa a apitar. Não sabemos o que se passou, mas sabemos que algo vai acontecer eventualmente e estamos de olhos presos ao ecrã para ver quando tal evento fatídico acontecerá. Pelo menos o meu eu de 12 anos estava super curioso!

Como disse acima, uma das coisas que mais me interessou foi ver crianças interpretar os papéis principais do filme e a brincar nas ruas da cidade do Porto. Mais recentemente, o que me fascina mais é ver que aquelas crianças representam muitos dos comportamentos de adultos, mesmo que se expressem com o registo inocente e puro das crianças. Em Aniki Bóbó, é possível encontrar um debate sobre o bem e o mal, assistir ao conflito entre dois rapazes pelo amor de uma rapariga, ao ato de cometer um  crime, à fragilidade da vida e ao peso do sentimento de culpa.

No fim, é fascinante perceber como Manoel de Oliveira contou esta história com um profundo valor moral. De notar que, na altura em que Aniki Bóbó foi lançado, o filme foi muito mal recebido pelos espectadores portugueses, especialmente pelo público da cidade do Porto, que ficou escandalizado ao ver romances infantis tão precoces.

Um dos poucos defensores do trabalho de Manoel de Oliveira foi António Ferro, director do Secretariado da Propaganda Nacional durante o Estado Novo. O director do SPN considerava os filmes cómicos portugueses “um cancro do cinema nacional” e tecia grandes elogios ao filme Aniki Bóbó. Este que foi um dos homens mais influentes da ditadura de Salazar defendia que o cinema nacional devia privilegiar documentários e fazer filmes a partir de romances: devia haver um investimento naquilo que ele considerava ser o cinema poético.

 

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